Ainda estamos na idade média.

 

Quando estudamos história, principalmente a história superficial que aprendemos na escola, é comum dividirmos a história do mundo em eras ou períodos. Temos diversas divisões do tempo: desde período paleolítico até a idade contemporânea. Usamos essas divisões para agregar em um período de tempo alguma característica marcante de determinada época para fazer uma generalização e pensar sobre o que marcou aquele período.Essa divisão não é tão simples e muitos mitos são ditos quando se cria um esteriótipo da sociedade de uma época. Mas não vou adentrar nesse assunto que pertence mais à quem discute teoria da história.

Popularmente, uma das mais famosas divisões da história do ocidente é a Idade Média, ou das Trevas. Época marcada pela extrema intolerância religiosa, estagnação da filosofia e monopólio da informação pela Igreja Católica Romana. Nessa época estranha, havia aqueles indivíduos que carregavam a culpa por todas as desgraças da sociedade: o herege.

O ser humano herege era considerado a razão de todos os males que assolavam o mundo católico. Doenças, pragas, desastres naturais, e até atos de indivíduos eram atribuídos aos hereges, as bruxas, os pagãos e todos aqueles que eram diferentes. Sabemos que a opressão foi violentíssima, com o uso de tortura e execuções que chegaram no limite da maldade. É comum pensarmos nas masmorras, onde as pessoas eram trancafiadas e seu destino era incerto e terrível.

Sempre fiquei  curioso sobre como fazemos essas divisões de tempo. Quando sei onde começou a idade média e começou o renascimento? De fato não existe essa transição brusca, mas sim um continuísmo lento que transiciona um período a outro, de forma tão gradual que é impossível dizer onde um termina e o outro começa. Quem faz essa divisão arbitrária são os historiadores que surgem depois da história acontecer. Hoje podemos olhar para trás e traçar marcos e dizer “aqui começa e aqui termina tal era”.

Mas é aí que me pergunto: o que os historiadores do futuro dirão de nós? Somos melhores hoje do que aqueles “seres humanos terríveis” de 1000 anos atrás?

Acho que os futuros historiadores irão ignorar as divisões posteriores a idade das Trevas que fizemos. Vão ignorar o Renascimento, o Iluminismo, além da época moderna e contemporânea e vão dizer “a humanidade viveu uma longa era das trevas. Todo o período entre 460 d.C. até mais de 202X d.C., o ser humano caçou bruxas, torturou e trancafiou pessoas por pura ignorância”.

Ou seja, fui otimista em dizer que talvez a idade das trevas acabe em algum ano da década de 20 do deste século, mas o mais alarmante é que ainda estamos nela. Ainda temos nossas bruxas e hereges. Hoje eles são os usuários de Canabis, culpados por todas as desgraças da sociedade. A caça as bruxas de hoje é uma perseguição desmedida à um grupo de pessoas que são estigmatizadas como “vagabundos” e “bandidos” e que devem ser queimados em praça pública para servirem de exemplo.

Na nossa política a palavra mágica é “traficante” assim como “herege”era. Essa palavra sintetiza todo o mal que existe, e atribuem ela à qualquer um que use ou plante Cannabis. Todo o esforço policial e dinheiro vai para a polícia procurar e prender quem planta e usa Cannabis, basta a palavra “tráfico”estar junto para que a turba revoltada peça sangue e vingança. Enquanto isso, os verdadeiros crimes contra a vida quase não são investigados.

Da mesma forma, as mulheres que estudavam a propriedade das plantas para produzir remédios, e tinham curiosidade sobre as coisas, sem aceitar a suporta autoridade de quem dizia o que era certo e errado, eram chamadas de bruxas e queimadas. Hoje, a sociedade faz o mesmo com quem quer utilizar essa planta maravilhosa como remédio para seus filhos, tornando a vida dessas mulheres e de seus filhos um inferno não permitindo que essas tenham acesso a planta. Numa lenta e cruel tortura psicológica e física.

As masmorras continuam aí, e a tortura também. Hoje se joga seres humanos,em sua maioria pobres e negros, em celas e os deixam apodrecendo, num sádico jogo de deixar que eles mesmo se matem e se torturem. Além disso, o Santo Ofício da inquisição de hoje, que é a polícia, tortura e mata quem quer e quando quer, principalmente se forem os de castas diferentes, como negros e pobres de periferia.

Por isso me pergunto como seremos vistos no futuro. Enquanto a cultura da repressão e do encarceramento daqueles que são diferentes da maioria for a lei vigente, ainda estaremos na Idade Média. E pode ser que no futuro sejamos lembrados como um grande período onde a ignorância reinou, sem diferenciação entre aqueles do passado que torturavam e matavam hereges e aqueles de hoje, que torturam e matam usuários.

 

 

 

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